A subversão de Aleijadinho

Baseado na afirmação bíblica “que o homem não deve viver só de pão”, o rei D. João V investiu mais pompa no cotidiano de seus súditos portugueses e seus colonos brasileiros por volta de 1717. O complemento à cultura já existente foi feito com estátuas glamurosas e obras sofisticadas feitas com pedras preciosas, madeiras de lei e ouro – o que causou uma grande exploração ao Brasil. Neste cenário, através do pagamento de uma promessa feita por Feliciano Mendes, foi construído o santuário de Congonhas que receberia mais adiante esculturas de Antônio Francisco Lisboa – o Aleijadinho, nascido escravo, filho bastardo de uma escrava africana e de um arquiteto português.

Cristo, de Aleijadinho

Cristo, de Aleijadinho em Santuário de Matosinhos - Congonhas

 Neste período, onde começava a se discutir a miscigenação brasileira em meio a uma escravidão ainda forte, o jovem Aleijadinho de destacava nas habilidades artísticas, sendo um dos poucos negros a escapar da vida escrava. Aprendeu a escrever e sempre buscava o aperfeiçoamento de sua arte, mesmo sendo vítima de paralisia e deformidades que resultaram na perda de um olho, dentes e dedos (para se proteger de olhares curiosos trabalhava coberto por uma tenda e tinha comportamento irritadiço quando incomodado). Por ser incapaz de trabalhar sozinho necessitava de um assistente que lhe amarrasse cinzel e marreta nas mãos, e que também aturasse os acessos de raiva do artista, que era visto como tirânico e intolerante com estranhos, mas normal e de ótimo humor com amigos.

 Aleijadinho tornou-se um dos artistas mais celebrados e procurados de Minas Gerais, sendo suas obras de grande sensibilidade e cheias de movimento. Seu primeiro trabalho com prova documental é a decoração da igreja de São Francisco de Assis em Ouro Preto, em 1766, onde esculpiu a fachada e partes interiores da igreja, decorada também com suas pinturas. Obras primas estão também no santuário de Congonhas, onde há uma série de seis cenas em tamanho natural que ilustram a Paixão de Cristo e doze estátuas de pedra sabão, representado quase todos os profetas do antigo testamento.

 Aleijadinho, percebendo-se tão feio que tinha que trabalhar sob uma tenda, procurava mostrar a glória de um Deus que optou ter forma humana, uma tão distante da sua, como se quisesse se ver refletido em uma de suas obras. Podemos dizer que sua capacidade de transformar pedra e madeira em algo semelhante a carne e osso, criar vida a partir da matéria inanimada, parece uma alegre contradição ao segundo mandamento do ciumento Deus de seu pai, vista a mobilidade e vitalidade invejadas que dava a suas obras.

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3 pensamentos sobre “A subversão de Aleijadinho

  1. É… compartilhamos das mesmíssimas opiniões. Muito bom, Wendell!

    Sinto falta de escrever, mas ao mesmo tempo não tenho vontade. Acho que estou trabalhando demais com isso…

    Obrigado por proporcionar momentos de reflexão e afinidades ideológicas*

    *Sinto-me estranho em utilizar esta palavra hoje. Ideologia para mim soa como algo ultrapassado, utópico, derrotado, “petista” e negativamente nostálgico. Mas o que quero dizer neste caso refere-se simplesmente à afinidades de opiniões, usei-a na falta de uma palavra melhor…

    As MINHAS ideologias transmutaram-se em princípios. Talvez eles sejam a sua aplicação prática.

    Obrigado por fazer-me escrever!

  2. É o Reyes ai comentando? Q mágico!

    Aleijadinho foi um artista fantástico. O povo latino(americano ou europeu) em toda sua história necessitou de imagens que representassem suas crenças, necessitam até hoje de algo para que possam olhar ou tocar e a demanda por artistas até pelo menos o século 18 foi imensa. Alguns artistas na minha opinião foram mais divinos do que seus retratados, como Michelangelo por exemplo. Quem me dera ter nascido alguns há alguns séculos, não estaria aqui sentado na frente de um computador fazendo algo que não gosto.

  3. Fico feliz de ter resposta de vocês! Muito obrigado pela atenção. Realmente parece que a cada dia somos engolidos pela necessidade de sobreviver fazendo algo que somos pagos para fazer, mas que não é aquilo que nos realiza existencialmente. Mas que continuemos com força para remar contra a maré (pelo menos nas horas de folga)! Rafael, gostei muito dos teus dois comentários e das reflexões. Vini, que bom que arrumou um tempo para passar aqui e comentar. Com vocês aqui eu penso melhor! Obrigado!

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