Crítica: A Serbian Film – Terror Sem Limites

Algo que eu esperava com a polêmica proibição de A Serbian Film no Brasil era a possibilidade de tudo ser uma imensa tempestade num copo de 300ml, com água pela metade. Até certo ponto eu estava errado, pois o filme de Srdjan Spasojevic tem sim sua (muito eficiente e gráfica) parcela de bizarrice chocante, mas infelizmente é um filme que só existe em função de sua violência.

No filme acompanhamos Milos (Srdjan Todorovic), um ator pornô decadente que, para resolver seus problemas financeiros e sustentar a família, acaba envolvido em um projeto secreto do insano diretor Vulkmir (Sergej Trifunovic), que mergulha o ator involuntariamente em um filme pornô bizarro e violento envolvendo drogas, pedofilia e necrofilia.

A parte mais difícil em se fazer um filme com uma premissa dessas é não deixar a violência gráfica sobrepujar o roteiro. Os efeitos especiais devem servir para alavancar uma narrativa consistente, mas aqui acontece o triste contrário: se não houvesse toda a violência gráfica que nos prende por uma curiosidade mórbida (no meu caso, as cenas que resultaram na proibição do filme no meu país), A Serbian Film seria o mais certeiro fracasso por ter um roteiro risivelmente pobre e equivocado. Ora, onde estão as dificuldades enfrentadas pela família de Milos (que mora em uma bela casa e tem dois carros) para que este continue a se sujeitar ao projeto doentio de Vulkmir? Me parece que o ator somente aceitou o trabalho apenas por nostalgia de seus tempos áureos como ator pornô – o que não é capaz de esconder nem do filho pequeno e esfrega na cara da esposa. Há diversas convenções preguiçosas no roteiro, mas esta é, de longe, o principal problema do texto, já que a maior motivação do protagonista nunca é realmente esclarecida para que possamos nos identificar com suas ações.

Mais bizarro vai! Isso! Agora com um cadáver! Todos vão baixar na net!

Mas apesar de ter um roteiro ruim, é um filme tecnicamente bem acabado – o que era inevitável, já que o principal elemento da “história” são as cenas chocantes. Fotografia e direção de arte adotaram uma paleta de cores pálidas que se tornam cores vibrantes somente quando que há algum indício de nostalgia ou recordação – seja nos filmes antigos de Milos ou quando o ator se recorda dos atos aterradores que cometera na produção de Vulkmir. A trilha musical eletrônica é impactante e perturbadora na medida certa, sempre acentuando o mal estar proporcionado pelas cenas de sexo violentas que, extremamente gráficas, são o ápice do filme.

Spasojevic disse em entrevista a um site brasileiro o seguinte:

“Queríamos mostrar com honestidade sentimentos profundos sobre a nossa região e o mundo em geral. Na vida real, sentimos que nosso dia-a-dia é tratado como pornografia. O personagem do ator pornô é uma metáfora para qualquer trabalhador explorado por seus chefes ou pelos governantes do sistema – cantor, padeiro, seja o que for.”

Louvável não? Mas infelizmente não é o que vemos de fato. Não há nenhuma intenção clara ou metáfora consistente que transmita qualquer tipo de crítica à política Sérvia, a não ser uma ou duas frases vazias como “Por que alguém iria me oferecer dinheiro depois de uma pausa tão longa? Na Sérvia?“. Em um contexto cuidadosamente elaborado, as cenas envolvendo pedofilia e necrofilia seriam sim metáforas absurdamente cruéis e eficientes, mas infelizmente os roteiristas não foram capazes de alcançar qualquer tipo de objetivo crítico – ou simplesmente não tiveram um interesse real de fazê-lo, querendo apenas justificar um filme vazio com um discurso político sem foco e oportunista.

Vadia... Como assim você não entendeu minhas metáforas?

 Vejamos mais um trecho da mesma entrevista:

“Pessoas inteligentes, que espero que todos sejamos, conseguem ver além das cenas violentas. Mas tem gente que não consegue compreender nem quem são os mocinhos e os bandidos da história”[…]

[…]”O filme está lá e espero que fale por si. (O público) Deve esperar um filme duro e difícil, mas fácil de entender, com metáforas nem tão complicadas sobre o que a violência pode provocar nos sentimentos.”

Tenha dó. Além de fazer um filme vazio que não passa de uma tentativa de criar um Holocausto Canibal do sexo, Srdjan Spasojevic ainda tenta justificar suas falhas em fazer qualquer tipo de crítica com um argumento tão infantil quanto o conto de fadas A roupa nova do rei. Infelizmente, uma decepção.

Update spoiler: Eu simplesmente gargalhei na cena que envolve um olho e um pênis que, um pouco antes, foi feito refém por seu próprio dono.