Crítica: Os EUA x John Lennon

De David Leaf e John Scheinfeld. Com depoimentos de Walter Cronkite, Mario Cuomo, Angela Davis, G. Gordon Liddy, George McGovern, Yoko Ono, Geraldo Rivera

É inquestionável a importância dos Beatles na cultura mundial. Os ingleses marcaram a história com seu rock energético e declarações polêmicas, porém a história particular de um deles foi além da música e o tornou um ícone da luta pela paz. John Lennon, com sua militância pública contra a política americana, tornou-se ídolo e inimigo público simultaneamente.

 O documentário de David Leaf e John Scheinfeld apresenta um Lennon pós-Beatles em pleno romance com a artista plástica Yoko Ono, sua musa e companheira. Enquanto o mundo acompanhava a dissimulada guerra dos EUA no Vietnã, que custou milhares de vidas durante o controverso governo do presidente Richard Nixon, Lennon investia cada vez mais em seu ativismo pela paz utilizando sua figura pública. Ao se mudar para Nova Iorque, enquanto enfrenta um jogo sujo do governo americano para extraditá-lo, o cantor se torna a principal figura no protesto contra a guerra.

 Lennon tinha pleno domínio de sua capacidade para atingir um grande número de pessoas compondo músicas como “Revolution”, que se tornou um grande sucesso dos Beatles com uma mensagem politizada e pacífica. Já em sua carreira solo surgiram “Give peace a chance” e “Imagine”, que automaticamente se tornaram hinos pela paz. Mas a genialidade de seus protestos não ficou só no campo musical. Ao lado de Yoko Ono promoveu o “bed-in” – quando o casal convidou repórteres para visitar seu quarto de hotel em Amsterdã, em plena lua-de-mel, para falar sobre paz – e outdoors colocados pelo mundo inteiro com os dizeres “War is over! If you want it.” (A guerra acaba! Se você quiser).

 É fato que Ono é mal vista por grande parte dos fãs dos Beatles como a principal responsável pelo fim do grupo, visto que Lennon dava muito mais importância à sua companheira, mas foi ao seu lado que o cantor mergulhou de vez na defesa pública dos direitos humanos. Mostrando-se como sua companheira leal, Ono sempre esteve ao lado do marido e percebemos pelas cenas de descontração do casal que, além dos ideais, um amor imenso os ligava – e nunca deixa de ser tocante quando a cumplicidade dos dois transborda na tela, seja em um largo sorriso ou em um simples olhar.

John Lennon em Nova Iorque

 A mudança de Lennon para Nova Iorque é a maior prova de sua coragem. Alianças com revolucionários como Bobby Seale dos Panteras Negras e shows promovidos pelos EUA inspiraram a população de forma impressionante na luta contra a guerra e a manipulação do governo americano. Hoje este tipo de protesto é inexistente, o que causa uma nostalgia dolorosa se pensarmos em casos semelhantes como a guerra do Iraque, que também foi criticada por artistas atuais, mas sem a magnitude e urgência daquela época. Lennon provou de forma incontestável o poder da fama quando usada em favor de causas nobres, porém hoje o processo inverso parece mais importante – a hipocrisia de atos particulares para a auto-promoção, como adotar uma criança negra e africana por exemplo, se tornou a principal motivação para uma figura pública do entretenimento associar sua imagem à uma causa supostamente nobre.

 Apesar de um final repentino (o que aconteceu após o desfecho da história de Lennon nos EUA também deveria ser mostrado), o filme é um grande tributo ao trabalho humanista e tocante desenvolvido por esta celebridade. A ciência de John Lennon do alcance de sua arte, de sua capacidade de influenciar e emocionar não só seus fãs como também outros que tivessem contato com seu trabalho é um exemplo de dignidade e amor que devem ser exaltados sempre.

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